11 de fevereiro de 2025 Mulheres e Meninas na Ciência: projeto de extensão da UFRJ promove educação, equidade e divulgação científica de mulheres
A equidade de gênero vai além da igualdade de oportunidades – é um compromisso com a transformação de estruturas, garantindo que talentos femininos tenham as mesmas condições de desenvolver pesquisas, inovar e liderar. No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, é fundamental celebrar iniciativas que incentivam a presença feminina em todos os campos do conhecimento.
O projeto de extensão Meninas na Ciência-UFRJ nasceu desse propósito: inspirar mulheres e meninas a trilharem caminhos na pesquisa científica.
Criado em 2017 pela historiadora Gabriella da Silva Mendes, o Meninas na Ciência-UFRJ é resultado de sua pesquisa de mestrado e se tornou um canal para que meninas e jovens mulheres enxerguem a ciência como um caminho possível. Mais do que inspiração, ele oferece ferramentas para que o futuro da inovação seja, de fato, diverso e acessível. Nesta entrevista, Gabriella compartilha sua trajetória e as estratégias para ampliar a presença feminina na ciência.
1. De onde partiu a ideia de criar um projeto para promover igualdade e a presença de mulheres na ciência?
Este tema, eu gosto de falar que ele surge de um incômodo particular que nem eu sabia que tinha. E hoje ele me é tão claro, porque é revoltante, a gente não viver numa sociedade onde a equidade exista.
Desde 2012/2013, minha relação acadêmica como Historiadora, está atrelada com a pesquisa científica, intimamente ligada às ciências. Tento, dentro do possível, em meus trabalhos, pensar em formas inovadoras de ajudar na transformação social, e contribuir para reversão do panorama da ciência, com relação aos gêneros no cenário brasileiro.
Equidade de gênero é um conceito que define a busca por equivalência social entre homens e mulheres, ou seja, mesmos direitos, deveres, privilégios e oportunidades de desenvolvimento.
Isso não significa, ao contrário do que a expressão dá a entender, que homens e mulheres devem ser sempre tratados como iguais ou terem o mesmo comportamento. Pelo contrário.
Como princípio, a equidade só pode ser mesmo alcançada se olharmos com atenção e respeito para as características e necessidades de cada um, reconhecendo e respeitando as diferenças. O incentivo e estabelecimento de regras internas para maior contratação de mulheres e promoção de um número estipulado delas para grandes cargos dentro de empresas são exemplos de ações onde é feita uma discriminação positiva entre os gêneros com o objetivo de diminuir uma desigualdade pré-estabelecida.
Falar sobre o tema parece ser coisa de gigantes. Assunto para discussão de cúpulas do governo, chefes de estado, políticas públicas e ações de grandes órgãos, como a ONU. E é, mas, também é assunto nosso, do dia-a-dia.
Quando parei para estudar mais sobre equidade de gênero, resolvi começar do começo. Ao invés de ler grandes teóricos e artigos acadêmicos, tentei entender onde, na minha vida, eu perpetuava desigualdade. E a constatação foi dolorida: eu estava acostumada a reproduzir comportamentos bem ruins.
2) E foi assim que surgiu o Meninas na Ciência…
O projeto então, surgiu em 2017/2018, a partir da minha pesquisa de Mestrado numa Escola Pública Municipal da zona norte do Rio de Janeiro. Onde realizando atividades de divulgação científica as meninas, questionaram diversas questões de desigualdades para mulheres, principalmente no seguimento às carreiras científicas, com ausência de inspirações e apoios para seguirem nessas carreiras.
3) Como vocês trabalham para despertar o interesse de meninas pela ciência desde cedo?
Trazendo mulheres inspiradoras em todas as áreas científicas, que também é uma proposta de desmitificação do projeto, onde todas as áreas são importantes, e não somente a da chamada ciência “hardy”.
Uma forma de aumentar o interesse pela ciência é encorajar ativamente desde cedo. Esteja bem ciente de quaisquer mensagens inconscientes que você possa estar transmitindo sobre estereótipos de gênero (todos fizemos isso). Isso pode incluir educar sobre todo o leque de carreira “STEAM” (Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) disponíveis e oferecer orientação sobre notas e cursos.
4) Você teve alguma referência feminina na ciência que te inspirou ao longo da sua jornada?
Todas as mulheres! Afinal, somos todas guerreiras desde sempre.
Quando Mae Jemison era criança, parecia improvável que ela um dia teria a chance de se tornar astronauta, quando todos eram homens brancos. Mas, ao ver a personagem Uhura na série de televisão ‘Star Trek’ deu a Jemison a inspiração de que ela precisava para marcar seu nome na história como a primeira mulher negra a ir para o espaço.
E a gente pode perceber que inspirações são importantes. Quando se fala de ciência, todos conhecemos grandes nomes como: Albert Einstein, Isaac Newton, Charles Darwin ou tantos outros… mas, quantas mulheres cientistas inspiradoras conhecemos? Marie Curie talvez seja o nome mais lembrado. Ela fez tantas descobertas sobre a radioatividade que o próprio termo “radioatividade” foi cunhado por ela, além de descobrir dois novos elementos da tabela periódica: o polônio e o rádio. Mas, existem outras grandes cientistas além de Curie.
Lise Meitner (descobriu o protactínio), Chien-Shiung Wu (princípio de conservação de paridade), Barbara McClintock (descobriu a transposição genética), Ada Lovelace (primeira programadora do mundo), Hedy Lamarr (sistema de salto de frequência) e muitas outras.
Estas mulheres provam não haver limites para uma cientista. Elas venceram barreiras e fizeram grandes descobertas mostrando que ciência também é coisa de mulher. Hoje, elas são inspiração para outras mulheres e meninas, também alcançarem seus sonhos, como o meu ao fundar e idealizar o Meninas na Ciência – UFRJ’.
5) Como podemos incentivar meninas e jovens mulheres a não desistirem da academia, mesmo diante dos desafios?
Enquanto algumas meninas são interessadas pelas áreas em STEAM por conta própria, outras desenvolvem interesse depois de um pouco de incentivo dos pais e modelos alternativos de ensino, como:
Inscrição em uma aula prática, de férias ou um programa STEAM. Existem diversos cursos que podem incentivar a tecnologia para crianças e adolescentes, que trazem a opção de aprender tecnologia de forma imersiva e divertida, livre de distrações e focada no aprendizado de novas habilidades;
Apresentação a jovens profissionais em carreiras STEAM. Entre em contato com engenheiras locais, médicas, cientistas da computação, professoras, farmacêuticas e outras;
Compartilhamento de livros, programas de tv, podcasts e outros meios de entretenimento que promova o empoderamento feminino nas áreas de STEAM.
Gabriella da Silva Mendes – Atualmente é Pós-Doutora pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense – IFFluminense (IFF) em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como Bolsista CNPq de Pós-doutorado Júnior (PDJ), integrando o Projeto: Engenheiras do Amanhã. Doutora (2024) e Mestre (2020) em Educação em Ciências e Saúde pelo Instituto NUTES de Educação em Ciências e Saúde, pelo Programa de Pós-Graduação Educação em Ciências e Saúde (PPGECS) do Centro de Ciências e Saúde (CCS) da UFRJ. Historiadora (Bacharel e Licenciada – 2017) pelo Instituto de História (IH) no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ.