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Em recente entrevista à Agência UFRJ de Inovação, a professora Juliany Cola Fernandes Rodrigues, futura Diretora Geral do Campus UFRJ Duque de Caxias, deu um panorama do funcionamento do campus durante a pandemia de Covid-19, bem como sobre as principais iniciativas que lá estão sendo desenvolvidas para o enfrentamento do coronavírus. Confira:

 

  1. 1. Como o Campus Duque de Caxias recebeu a notícia e se preparou para lidar com essa nova realidade imposta pelo novo coronavírus?

 

Quando recebemos a notícia da suspensão das atividades acadêmicas, estávamos nos preparando para realizar a compra de álcool gel para distribuir pelo campus. Durante o fim de semana, a direção do campus decidiu que a reunião para organização das nossas atividades seria virtual, porque boa parte do nosso corpo técnico-administrativo depende de transporte público e coletivo. Colocamos em primeiro lugar a saúde do nosso corpo social.

Após várias reuniões virtuais, organizamos a escala de trabalho home office de todos os setores do campus, definindo a continuidade das atividades, mas de forma remota. Prontamente foi colocado por todos que, precisando de atendimento presencial para solucionar problemas surgidos ao longo dos dias, os servidores estariam todos à disposição e com rápido acesso por parte da direção geral do campus. Todas as informações do trabalho home office dos nossos setores foram enviadas para a reitoria e suas pró-reitorias, circulado entre todo o corpo social por email e colocadas na página principal do nosso website (www.caxias.ufrj.br).

Em relação às atividades de pesquisa, o campus hoje tem dois laboratórios em funcionamento pleno. O Laboratório de Computação (NUMPEX-Comp) tem suas atividades todas podendo ocorrer por home office, então foi rapidamente fácil eles se organizarem. Já o Laboratório de Biologia (NUMPEX-Bio), que hoje tem um contingente grande de alunos de iniciação científica e pós-graduação (em torno de 100 alunos), alguns dos projetos estão em andamento mediante justificativa do orientador da essencialidade de manutenção dos experimentos. Por exemplo, temos um grupo que trabalha com Biotecnologia Vegetal e que estava numa fase de acompanhamento de plantas diárias por um tempo aproximado de seis meses e que se parasse, ia interromper uma análise funcional que colocaria mais de ano de projeto a perder. Quer dizer, é algo que não pode parar. Também temos um banco de células que são cultivadas em laboratório que precisamos manter congelada em nitrogênio líquido e a cada 15-21 dias é preciso completar o volume com nitrogênio para mantê-lo.

Ainda temos nossos administradores de prédio que têm ido praticamente todos os dias ao Campus para se certificar que tudo está sob controle e em segurança.

 

  1. 2. Existe alguma atividade sendo realizada para auxiliar as ações desenvolvidas pela instituição?

 

Apesar do campus ter apenas 11 anos de existência e se encontrar em fase de consolidação, também com um corpo docente de jovens pesquisadores, nós já temos contribuído significativamente para a produção científica da UFRJ e da Ciência Brasileira. E dentro do cenário que estamos vivendo neste momento, vários docentes do campus já estão em diferentes frentes de trabalho junto à UFRJ, startups e Instituições de Pesquisa atuando no enfrentamento da pandemia de coronavírus.

Com certeza o grupo de colegas que provavelmente vem articulando ideias para concorrer aos editais especificamente abertos no combate ao coronavírus é grande, mas vou citar alguns que já estão bem definidos e em andamento:

 

- Os professores Fabiana Carneiro, Lucio Caldas e Leandra Baptista estão participando de um projeto coordenado pelo prof. Wanderley de Souza que contará com apoio da FAPERJ para estudar os mecanismos de entrada do vírus e o curso da infecção em diferentes tipos celulares, usando tanto cultivo 2D, quanto cultivo 3D, neste caso utilizando a estrutura da startup Gcell coordenada cientificamente pela profa. Leandra e que está incubada no Inmetro em Xerém.

 

- A profa. Fabiana Carneiro em associação com a startup Magtech está envolvida na fabricação de kit diagnóstico reutilizável para COVID-19, utilizando nanopartículas magnéticas recobertas, sendo essa uma solução mais econômica em comparação aos kits disponíveis hoje e, além disso, gerando menos lixo para o meio ambiente.

 

- O prof. Ronaldo Pedro da Silva, líder do grupo ConvergeLab, também incubado no Inmetro, em parceria com este e a COPPE, está atuando na impressão 3D para produção de componentes das máscaras de acrílico. As impressoras do professor, que também são patrimônio da UFRJ, já estão produzindo 20 máscaras por dias e eles estão buscando a expansão para aumentar a produção, bem como componentes dos ventiladores pulmonares desenvolvidos pela equipe do colega Jurandir Nadal. Estes projetos contam com a participação de alunos de iniciação científica do campus, bem como outros docentes e técnicos da UFRJ. O prof. Ronaldo também vem trabalhando em cooperação com a PUC-Rio em busca de novos tecidos e materiais que poderiam ser usados na fabricação de máscaras N95, bem como métodos diagnósticos que fazem parte da monografia de final de curso de dois dos nossos estudantes do curso de Biotecnologia.

 

- O prof. William Correa Tavares está trabalhando em parceria com o Laboratório de Diversidade e Doenças Virais do Instituto de Biologia da UFRJ para a identificação de viromas em morcegos do Rio de Janeiro para identificar possíveis novos vírus que existam nestes seres que são muito frequentes nos ambientes urbanos e rurais no Brasil. É conhecido que os morcegos hospedam uma grande quantidade de vírus de 26 famílias virais, alguns com grande potencial zoonótico, isto é, de ser transferido para nós. O vírus da raiva é um destes. Agora sabemos que o coronavírus SARS-Cov2 originou a partir de uma linhagem de morcegos asiáticos. É importante conhecer possíveis vírus que estejam circulando entre a população de morcegos no Brasil para identificar quais deles poderiam ter potencial de salto zoonótico. Isto nos dará mais velocidade de reposta em caso de um surto zoonótico futuro.

 

- O prof. Adriano Cortes, pesquisador da área da Matemática, está começando um estudo para desenvolver estratégias ótimas de testagem em grupo via RTq-PCR como uma forma de compensar a problemática de não termos capacidade de testagem maciça individual. Através de modelos matemáticos e rodagem de simulações você busca o ótimo para obter números confiáveis a partir de testagem em grupo.

 

- A profa. Bianca Pizzorno, da área de Química e Ciências de Materiais, começou a realizar um estudo de avaliação da estrutura microscópica de diferentes tecidos que já vêm sendo utilizados para fazer máscaras caseiras (como jeans, algodão, tricoline, TNT, Oxford, meia, camisa de malha etc) de forma a identificar quais poderiam ser melhor barreira física para o vírus de acordo com o estudo de superfície do tecido. O vírus tem um tamanho entre 70 a 90 nm. Ela classificou o jeans, algodão 100% e Oxford, como os tecidos de trama mais fechada para o vírus. Ela já vem estudando tecidos com ação antimicrobiana e acredita que esta pode ser uma linha interessante de pesquisa pensando em alternativas para nos proteger do vírus.

 

- Temos duas professoras, a profa. Carolina Braga e Luiza Ketzer, que fazem parte da equipe do projeto de divulgação científica Ser Cientista que estão trabalhando com alunos de graduação na divulgação de trabalhos e informações relacionadas à Pandemia de COVID-19 e também sobre a biologia do coronavírus.

 

  1. 3. Quais foram e quais estão sendo os desafios?

 

Os desafios são gigantescos porque a universidade pública e a ciência brasileira já vêm há alguns anos vivendo um sucateamento com cortes cada vez maiores de recursos financeiros para nossas atividades acadêmicas de ensino, pesquisa e extensão. Nos últimos anos, houve também uma política de desvalorização do nosso trabalho e críticas infundadas sobre nossa atuação e importância.

Esta pandemia chegou na pior fase da ciência brasileira. Estamos vendo nos telejornais que muitos colegas que poderiam estar atuando, especialmente em diagnóstico, não têm recursos para isso. Vemos uma universidade do porte da UFRJ fazer um fundo para investir em infraestrutura para dar conta de atender os pacientes que chegarão em número cada vez maior no seu complexo hospitalar que tem nove unidades de saúde, incluindo o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho.

Mas por outro lado, ao final deste momento, que provavelmente vai demorar mais que esperamos com resultados muito negativos para a sociedade quando falamos de vidas humanas, acredito que vai ficar claro para os governantes e a sociedade como um todo a importância e essencialidade do desenvolvimento científico e tecnológico, da ciência para o nosso país. Como disse Sócrates, “a vida sem ciência é uma espécie de morte”. Não existe vida sem ciência. Absolutamente tudo que está ao nosso entorno tem a ciência como base para existir; tudo que conhecemos, que usamos, a forma de prevenir, diagnosticar e tratar doenças.

Para o Campus de Duque de Caxias é um desafio grande também. Vou tomar posse como diretora do campus na última semana de maio e é possível que ainda estejamos em quarentena (não sabemos ainda quanto tempo ficaremos assim) e em meio à fase mais difícil que já passamos em todos os sentidos. O campus vinha com uma perspectiva muito positiva, pois conseguimos recursos extra-orçamento participativo através da reitoria e emendas parlamentares para reformar prédios e ampliar nosso espaço de Laboratórios de Pesquisa para atender diferentes áreas do conhecimento como Nanotecnologia e ampliação das áreas de Biologia Geral e Biotecnologia.

Mas acredito que sairemos muito mais fortes e melhores, mais resilientes. Também mais organizados e com uma visão muito mais ampla e sólida por parte da sociedade e governos do que significa a universidade e a ciência para a sociedade.

A vida tem me ensinado que é na crise que mais crescemos e evoluímos. Assim venho tentando ser otimista, pensando que nunca mais seremos os mesmos. Nós seremos muito melhores.

 

A professora Juliany Rodrigues também falou mais sobre o funcionamento do campus Duque de Caxias no episódio 15 da série Desafios da Inovação. Assista no Youtube no link a seguir: https://youtu.be/LX1ZEdSwXRs.

 

 

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