biohacking2Entre os dias 20 e 24 de fevereiro, foi ministrado no Espaço Hub UFRJ, localizado no Parque Tecnológico, o curso “Biohacking e Empreendedorismo Maker voltado para Biotecnologia”. A iniciativa do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia Vegetal (ou PBV para os íntimos), criado em 1993 na Decania do Centro de Ciências da Saúde, se destaca por conta de seu pioneirismo. Conforme explicou Camila Cristane, responsável pela disciplina, esta foi a primeira vez que uma matéria relacionada a biohacking foi oferecida numa universidade.

Inspirada no curso do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) “Como fazer quase tudo” (How to make almost anything), a disciplina buscou promover a inserção dos alunos na cultura maker e do empreendedorismo, abordando a ideologia de science hacking voltada especificamente para o campo da Biotecnologia. A ideia foi proporcionar o contato dos discentes com ferramentas, pessoas, empresas e iniciativas que, apesar de, a princípio, parecerem algo muito distante das noções normalmente difundidas dentro das universidades, podem representar valiosos complementos a estes aprendizados.

Conforme explicou Camila Cristane, “Ainda existe uma forte resistência acadêmica a este tipo de iniciativa por parte dos professores com uma visão mais tradicional. Mas em tempos em que impera nos alunos uma preocupação com o desemprego pós-faculdade, os docentes mais visionários já enxergam que empreender nesta área pode ser uma alternativa”.

O professor Márcio Ferreira parece se identificar com este último grupo descrito pela mestranda em Biotecnologia, uma vez que, segundo ela, foi o próprio docente quem a incentivou a ministrar a disciplina. Bagagem, de fato, não falta à estudante. Camila contou que há alguns anos foi chamada para integrar o makerspace Olabi (laboratório de inovação e tecnologia direcionado à cultura maker) com outros dois amigos da UFRJ e lá teve seus primeiros contatos com o biohacking.

Cabe aqui um breve parêntese para clarificar o real significado de biohacking. Isto requer, por sua vez, uma breve análise do termo “hacker”, o qual teve sua origem no inicio da década de 60, quando alunos do MIT começaram a utilizar o computador da universidade com o intuito de aprimorar os seus conhecimentos sobre a máquina e descobrir novas possibilidades para o seu uso. Não tardou para que se estabelecesse uma ética hacker, cujos pilares estão fundamentados na noção de que todo conhecimento deve ser livre, aberto, acessível e ilimitado.

Do encontro dessa ética hacker com o movimento maker surge o science hacking, algo que pode ser classificado como uma espécie de “ciência de garagem”. Some-se o prefixo “bio” e fica fácil entender o significado de biohacking. Nas palavras de Camila Cristane, a ideia central é “democratizar as Ciências Biológicas e empoderar as pessoas para que elas possam resolver os seus próprios problemas”. Mas não única e exclusivamente os próprios problemas, como revela a própria trajetória de Camila.

Em 2015 ela participou do evento Startup Weekend BH Biotech & Digital Health, idealizado pela Fundação Techstars (Google for Interpreneurship) e organizado pela incubadora e aceleradora Biominas. Na ocasião, Camila e uma equipe composta por outros estudantes desenvolveram um projeto relacionado a wearable technology para portadores de próteses de membros superiores que utilizava a substituição sensorial para garantir sensações de toque e temperatura. O objetivo era tornar estes dispositivos mais confortáveis e funcionais, humanizando-os. A qualidade do trabalho rendeu-lhes o terceiro lugar na competição e impulsionou a criação da startup OpenHands.

O curso

biohacking3Inspirada em grande parte por toda a experiência adquirida fora dos muros acadêmicos, Camila contou que durante o curso buscou o tempo todo preparar os alunos para terem contato com a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos na Universidade, além de explorar a noção de rede. “O modus operandi acadêmico ainda é muito engessado. As pessoas não trabalham colaborativamente. É necessário trazer a realidade para dentro da bolha acadêmica”, comentou.

Neste sentido, Camila explicou que pode ser extremamente saudável e proveitoso desconstruir certas lógicas que ainda reinam da academia. “No curso de biohacking nós recebemos estudantes com escolaridades e formações diferentes. Tivemos alunos de Biomedicina, Biofísica, Gastronomia, Nutrição, Economia, enfim, das mais diversas áreas, e que não necessariamente estão diretamente relacionadas às Ciências Biológicas. Ainda é muito difícil para alguns aceitar isso, mas acredito que hoje em dia qualquer um pode ser um cientista, independentemente da sua formação. Isso porque existe muito mais liberdade para fazer e para criar quando não se está vinculado diretamente a uma instituição. Mas para isso é essencial saber interagir e trabalhar em rede”, explicou.

Os frutos desta interatividade foram ideias embrionárias para novas empresas ligadas ao setor de Biotecnologia. “Conseguimos despertar nos alunos um senso de pertencimento e abrimos seus olhos para a possibilidade de empreender. Eles abraçaram a ideia e se organizaram em empresas fictícias, sendo que três delas se destacaram bastante. Um grupo criou o ‘Doctor Go’, um sistema baseado em arduino (plataforma de prototipagem eletrônica de hardware livre e de placa única) para melhorar a comunicação interna em ambientes hospitalares. Outro grupo criou um produto batizado de ‘spirulinda’, um kit caseiro para cultivo de spirulina, que é uma microalga muito rica em proteínas. E, finalmente, tivemos um grupo que desenvolveu o ‘Kbio’, um desodorante feito à base de kombucha (biofilme obtido a partir da simbiose entre leveduras e bactérias)”, conta Camila.

Segundo ela, o feedback obtido foi muito positivo, o que despertou na mestranda o desejo de oferecer novamente o curso em breve, além de ministrar palestras e workshops sobre o tema futuramente. Se a dedicação e o comprometimento forem como os demonstrados em sua última empreitada, o sucesso já está garantido. Afinal, como ela mesma afirmou: “Foi o trabalho que eu fiz com o maior carinho da minha vida”.

Espaço Hub do Parque Tecnológico

Até por conta de todabiohackings estas características, dificilmente o curso de biohacking poderia ter sido oferecido em um lugar mais apropriado do que o Espaço Hub do Parque Tecnológico. “Trata-se de um espaço para ‘desajustados’, no sentido de que lá podem ser desenvolvidas diversas atividades que não têm lugar nos laboratórios científicos tradicionais, onde não há muito espaço para o questionamento”, explica Guilherme Monteiro, um dos fundadores do Hub, que também participou do curso.

O Hub UFRJ é um laboratório em rede de projetos experimentais montado com a intenção de se tornar uma referência para a comunidade acadêmica da UFRJ que tem interesse em empreender e impactar a sociedade através de descobertas científicas e tecnológicas. Acumulando características de um makerspace (oficina de uso coletivo), um fablab (oficina de projetos digitais) e um medialab (laboratório para projetos interdisciplinares em diversas áreas como design, artes, comunicação etc), este espaço físico permite o compartilhamento de recursos, equipamentos e serviços para transformar o conhecimento adquirido na Universidade em inovações e atividades empreendedoras. Assim, o espaço busca ser referência para aqueles que queiram inovar em suas áreas e precisam de suporte para o desenvolvimento das atividades, promovendo uma rede de apoio a projetos sociais, startups e projetos colaborativos.

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