armadilhaaedesAs temperaturas registradas no último mês não deixam dúvidas. O verão chegou com tudo. Enquanto para muitos a estação é sinônimo de férias e de diversão, para outros o calor avassalador é um verdadeiro estorvo. Independentemente da relação de amor e ódio que o verão sempre suscita, ao menos uma unanimidade também é despertada com a chegada desta época: a preocupação com as enfermidades que têm sido as grandes vilãs dos últimos anos.

Para se ter uma ideia, segundo dados dos últimos boletins epidemológicos do Ministério da Saúde, no ano de 2016, o Brasil registrou 794 óbitos em decorrência de dengue, zika e chikungunya. A maior parte das mortes, 629, foi provocada pela dengue. Vale lembrar que há apenas quatro anos, em 2013, o país teve seu maior surto desta doença, com aproximadamente dois milhões de casos notificados.

No ano passado também foram registrados 265.554 casos prováveis de febre chikungunya no país (129,9 casos para cada 100 mil habitantes). O número é cerca de seis vezes maior do que o de 2015, quando foram notificados 38.499 prováveis casos da doença.

Quanto à zika, em 2016, foram computados 214.193 casos prováveis no país (taxa de incidência de 104,8 casos/100 mil habitantes). Os primeiros registros da doença em território nacional se deram em 2015, nos estados da Bahia e do Rio Grande do Norte, causando grande preocupação principalmente entre as gestantes, por conta da associação do vírus com casos de microcefalia.

As três doenças têm em comum um velho conhecido do povo brasileiro. Elas têm como principal vetor o mosquito Aedes aegypti. Uma vez que não há vacinas ou terapias efetivas para estes vírus, o combate ao vetor continua sendo a principal forma para evitar a disseminação destas doenças.

Não bastasse tudo isso, o início de 2017 já traz consigo o pior surto de febre amarela registrado no Brasil nos últimos dez anos. Diversos casos de óbito já foram relatados, principalmente na região de Minas Gerais desde o começo do ano. A última epidemia ocorreu entre 2008 e 2009, quando 51 casos foram confirmados.

Apesar dos recentes registros estarem relacionados à febre amarela silvestre, transmitida pelo mosquito Haemagogus, atualmente existe a preocupação de que possa ocorrer uma reincidência da febre amarela urbana. Na prática, trata-se da mesma doença, mas com transmissão a partir de vetores urbanos, mais especificamente o Aedes aegypti, exatamente como acontece com a dengue, zika, chikungunya e até mesmo com a ainda pouco conhecida febre mayaro. Vale ressaltar que a febre amarela urbana não é registrada oficialmente no Brasil desde 1942, e sua volta representaria um duro golpe na Saúde Pública Brasileira.

Nova armadilha culmina em pedido de patente

Foi com este cenário em vista que um grupo de pesquisadores da UFRJ uniu esforços para buscar uma solução mais eficiente para o combate ao Aedes aegypti. Neste sentido, a invenção elaborada pelos professores Ivo Carlos Correa (Departamento de Prótese e Materiais Dentários da Faculdade de Odontologia), Mônica Ferreira Moreira (Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular de Vetores, do Instituto de Química) e Edimilson Migowski (Departamento de Pediatria, da Faculdade de Medicina) em conjunto com Tiago Salles (doutorando em Bioquímica) se mostra uma tecnologia extremamente promissora. Culminando em um pedido de patente realizado através da Agência UFRJ de Inovação, a invenção se trata de um dispositivo capaz de atrair, capturar e exterminar o mosquito Aedes aegypti, principalmente as fêmeas da espécie.

Conforme explica a professora Mônica Moreira, a armadilha desenvolvida pelos inventores tem como diferencial o fato de ser destinada especificamente ao mosquito Aedes. “Os outros produtos que já existem no mercado, especialmente os que fazem uso de luz ultravioleta ou branca, são voltados para insetos em geral. Acontece que os odores dos outros insetos acabam dificultando a captura do Aedes aegypti. E ao reconhecer estes odores, o Aedes simplesmente evita estes produtos já existentes”, explica. A professora também chama a atenção para outro detalhe importante: “É a fêmea do Aedes que é o vetor das doenças”.

É justamente aí que a engenhosa invenção desenvolvida na UFRJ se destaca. Baseada na emissão de luz LED em comprimentos de ondas específicos entre o azul e o amarelo e com pico na cor verde, a armadilha sensibiliza a retina da fêmea do mosquito para atraí-la e, em seguida, capturá-la através de um sistema de sucção reversa. Finalmente, o inseto é empurrado em direção a uma grade que emite uma descarga elétrica de baixa voltagem, causando a morte do mosquito.

Tecnologia limpa e amigável ao meio ambiente

A tecnologia ainda apresenta o benefício de agir também sobre os mosquitos resistentes a inseticidas químicos, além de se enquadrar na concepção de tecnologia limpa, não causando qualquer tipo de poluição ambiental. “Por não empregar inseticida ou qualquer produto químico, a invenção é considerada amigável ao meio ambiente e, por isso, pode ser usada em locais abertos ou fechados, frequentados por adultos, crianças ou recém-nascidos”, comentam os inventores.

Para se ter uma ideia, testes laboratoriais realizados na UFRJ demonstraram que durante um período de 24 horas, enquanto armadilhas para insetos que fazem uso de luz branca são capazes de matar de três a cinco em cada 20 mosquitos, a nova armadilha com luz LED foi capaz de eliminar de 16 a 19. Ou seja, ela mostrou ser praticamente cinco vezes mais eficiente.

O professor Ivo Carlos Correa explica ainda outra vantagem da nova armadilha: “Por conta do seu baixo custo de produção, ela pode ser fabricada em diversos tamanhos. Até mesmo o seu funcionamento através da conexão a um computador via USB seria algo viável”.

O próximo passo é buscar a inserção desta promissora tecnologia na cadeia produtiva. Atualmente a Agência UFRJ de Inovação está em busca de empresas interessadas em levar a armadilha para mosquito Aedes ao mercado. Os interessados podem entrar em contato através do email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

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