universidadedasquebradasargentina2“O que eu canto tá explícito nos livros
Que custam 120 reais pela estratégia dos ricos
Quanto mais dígitos no preço da informação
Menos revoltado mirando Uzi sob a luz da razão
Por isso atuo como um pirata somali no hip hop
Roubo dados sigilosos e injeto nos bairros pobres”

O trecho é de uma música da carreira solo de Eduardo Taddeo. Em apenas seis versos ácidos e contundentes, o rapper que esteve por anos à frente do grupo Facção Central explicita aquilo que pode ser lido como uma crítica ao exclusivismo do conhecimento acadêmico. Ironicamente, na data de fechamento desta matéria, o clipe de “Substância Venenosa”, lançado no final de 2015, já contava com mais de 1,2 milhão de visualizações no Youtube. Com tamanha abrangência, Eduardo, mais do que roubar dados sigilosos para injetar nos bairros pobres, deixa claro que o conhecimento acadêmico tem muito a aprender com a periferia.

De um lado, a universidade e seu saber que se pretende universal mas que, na prática, ainda é algo absolutamente restrito. De outro, a periferia com uma demanda não atendida por informação, mas que, por si só, também é capaz de produzir seu próprio conhecimento. Nada mais pertinente, portanto, do que uma soma de esforços no sentido de buscar a aproximação entre os dois ambientes em prol de um aperfeiçoamento mútuo e conjunto. É justamente este o paradigma que move o Laboratório de Tecnologias Sociais Universidade das Quebradas. Ou, simplesmente, “Universidade das Quebradas”.

O embrião deste projeto de extensão surgiu a partir de uma ação que abriu as aulas de pós-graduação da ECO/UFRJ não só aos seus próprios alunos de pós, mas também aos de graduação e extensão. Diante dos bons resultados da experiência, optou-se por ampliar ainda mais este processo de troca. Foi assim que ativistas, artistas e produtores culturais das periferias se somaram à mistura. E, deste amálgama que faz convergirem o conhecimento acadêmico e o saber tradicional, nasceu a Universidade das Quebradas.

Neste sentido, a iniciativa se consolida como uma via de mão dupla. Ao mesmo tempo em que é um projeto voltado para as comunidades que estão produzindo cultura mesmo sem acesso à produção intelectual das universidades, a Universidade das Quebradas também almeja a própria reinvenção de uma academia que demonstra uma carência similar em relação ao acesso a saberes e formações culturais externos. Conforme explica Iris Guardatti, coordenadora de Inovação Social e Empreendedorismo da Agência UFRJ de Inovação: “Estas características criam uma ambiência para a inovação que faz com que o setor de Inovação Social da Agência apoie a iniciativa”.

“A palavra de ordem aqui é parceria. Tudo que a gente fizer vai ser junto. Pensando juntos, gerindo juntos. Somos uma família”, explica Heloisa Buarque de Hollanda, coordenadora geral do projeto.


Participação na V Jornada de Extensão do Mercosul

Para além das quebradas brasileiras, no mês de maio, a Universidade das Quebradas foi destaque na V Jornada de Extensão do Mercosul, realizada nos dias 19 e 20 de maio na cidade de Tandil, província de Buenos Aires, na Argentina. Estes encontros são realizados de forma conjunta entre a Universidade Nacional do Centro da Província de Buenos Aires e a Universidade de Passo Fundo, do Estado do Rio Grande do Sul, alternando-se anualmente nos dois países. Neste ano, o evento reuniu aproximadamente 500 trabalhos de diversos países da América Latina.

Direcionadas a docentes, graduados, estudantes e técnicos-adminstrativos de universidades dos países do Mercosul, a ideia das Jornadas é promover um espaço de intercâmbio de reflexões e de experiências sobre os caminhos da extensão e, portanto, das próprias universidades, para o fortalecimento e consolidação de um modelo mais justo de desenvolvimento das sociedades do território latino americano, tomando por base as constantes experiências de democratização do Estado, de implementação e avaliação de políticas públicas que promovam o desenvolvimento sustentável, o pleno exercício dos direitos humanos, o empoderamento da sociedade, a construção permanente da cidadania, o fortalecimento dos sistemas produtivos e o impulso ao desenvolvimento tecnológico e dos processos de inovação.

Conforme explica Iris Guardatti, que, além de coordenar o setor de Inovação Social e Empreendedorismo da Agência, também é responsável pelo desenvolvimento estratégico da Universidade das Quebradas: “O interesse em participar da V Jornada de Extensão do Mercosul foi provocado pela intenção de estreitar nossa relação com as universidades do território latino americano, na perspectiva de melhor nos conhecermos e reconhecermos como povos que guardam ricas diferenças, seja nas artes, na gastronomia, nas trajetórias, mas que, no entanto, também guardam muitas igualdades nos desafios sociais que enfrentam”.

universidadedasquebradasargentina1Iris completa: “Dentre os projetos que estão vinculados ao setor de Inovação Social e Empreendedorismo da Agência, estimulamos a participação com a Universidade das Quebradas porque encontramos no evento eixos de discussão que instigavam o compartilhamento da experiência que vivemos com este projeto. Também nos estimulava a busca por diálogos com pessoas e iniciativas “vizinhas” na direção de colaborações e intercâmbios. A Universidade das Quebradas nasce acompanhada da pergunta sobre o papel da universidade pública. Uma inquietação que não nos abandona e que nos desafia à transformação. Transformação da universidade em espaço de troca, de conexão de saberes, experimental, de produção de novos conhecimentos e de democratização de saberes”.

O Laboratório de Tecnologias Sociais Universidade das Quebradas é regido pelo conceito de ecologia de saberes, desenvolvido, ainda que de maneiras diferentes, por Felix Guattari e Boaventura de Sousa Santos. Por ecologia de saberes estes autores entendem o equilíbrio sistêmico entre as diversas formas de saberes vernaculares e acadêmicos, (científicos e técnicos) e a longa trajetória histórica de silenciamento de certos saberes não formais por outras formas dominantes de conhecimento.

O trabalho submetido ao evento foi escrito a várias mãos articulando docentes, técnicos e quebradeiros. Segundo Iris Guardatti: “Desde quando decidimos participar da Jornada, tínhamos claro que poder contar com a presença um quebradeiro no evento era questão inerente ao processo. Com o apoio da Agência, conseguimos viabilizar a participação da mestre quebradeira Renata Freitas".

Renata explica que a Universidade das Quebradas oferece "aulas expositivas com o currículo de humanidades em nível de graduação associadas ao que chamamos de território das quebradas, seminários oferecidos pelos alunos sobre a estética da periferia, a história das comunidades a que pertencem e os paradigmas de conhecimento utilizados nas culturas das favelas e periferias.”

Sobre a participação no evento, Iris comenta: “Foi sem dúvida uma oportunidade muito rica de aprendizado e troca. Para a Universidade das Quebradas em especial, acredito que o ensejo de conhecer formatos e processos subjacentes às experiências de diálogo entre saberes populares e acadêmicos no território latino americano ampliaram o olhar de possibilidades e estudos. Foi muito interessante perceber o quanto a proposta da UQ é inovadora neste contexto. A participação da Renata foi emblemática neste sentido, uma vez que a construção metodológica das Quebradas se revelava ali, verdadeiramente na prática. Com a quebradeira refletindo e debatendo sobre a extensão universitária junto com representantes da academia. Isso foi muito positivo. O evento também nos inspirou para novas iniciativas na UQ, como, por exemplo, pensarmos na possibilidade de recebermos alunos visitantes oriundos dos países da América Latina e organizar eventos de ‘trocas latinas’. Os contatos foram muitos e nossas mentes se encheram de novas idéias”.

Mais informações sobre a Universidade das Quebradas em: http://www.universidadedasquebradas.pacc.ufrj.br.

 

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