Em 1948 o químico suíço Paul Muller ganhava um prêmio Nobel de Medicina. Sua descoberta: a utilidade do DDT enquanto inseticida, além de sua eficácia contra o tifo e a malária. Rotulado como um produto eficiente e de baixo custo, o sucesso do DDT foi, em grande parte, responsável pela popularização dos agrotóxicos após a Segunda Guerra Mundial, antes que seus efeitos nocivos tivessem sido devidamente pesquisados e debatidos publicamente. Desde então uma infinidade de novos compostos organossintéticos foram produzidos, acabando por constituir a grande indústria de agroquímicos presente nos dias de hoje. Apenas para se ter ideia, desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, no Brasil o crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Anvisa.

O vasto aumento observado na produção agrícola durante as décadas de 1960 e 1970 nos países em desenvolvimento por conta do uso destes insumos químicos, somados a outras ferramentas tecnológicas, ficou conhecido como a "revolução verde". Uma das formas de avaliar a eficiência deste modelo de agricultura era mensurar o número de pessoas que um agricultor seria capaz de alimentar, além de si próprio. Em 1950, esta relação era de 1 para 10, ampliando-se, em 1991, de 1 para 71. Deste modo, a principal bandeira da utilização dos agrotóxicos foi um aumento sem precedentes da oferta de alimentos. Todavia, esta análise ignora outros fatores como o melhoramento genético das plantas e a crescente mecanização no campo.

Este aumento da produtividade muito serviu para camuflar os efeitos da degradação do solo em função do uso de agrotóxicos na agricultura moderna, desviando os olhares críticos e retardando a introdução de práticas ecologicamente mais adequadas. Mascararam-se assim outros impactos negativos deste modelo, em especial os danos associados à saúde dos trabalhadores rurais, que podem ser afetados pela manipulação direta ou por meio de armazenamento inadequado, reaproveitamento de embalagens, roupas contaminadas ou contaminação da água.

Segundo dados do Sinitox (Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas), foram registrados, no período de 2007 a 2011, 26.385 casos de intoxicações por agrotóxicos de uso agrícola e 13.992 por agrotóxicos de uso doméstico. Mas o problema pode ser bem maior. O próprio Ministério da Saúde reconhece que há uma subnotificação dos casos de intoxicação. Estima-se que, para cada incidente notificado, outros 50 não sejam comunicados.

Felizmente, hoje, diferentemente de décadas passadas, os efeitos nocivos dessas substâncias, tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana, tornam-se mais perceptíveis e debatidos publicamente, abrindo portas, ainda que lentamente, para modelos mais justos e ambientalmente sustentáveis. Como alternativa à produção agroindustrial, a agroecologia se inspira nos processos naturais do meio ambiente para garantir o equilíbrio de ecossistemas. As vantagens são muitas. Ganham os pequenos produtores, que economizam por não usarem defensivos tóxicos; ganham os consumidores, que recebem produtos mais saudáveis; e, claro, ganha a natureza, preservada graças a uma produção sustentável.

 

O Quintal da Vanessa

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Visando justamente a dar espaço e visibilidade à agroecologia, os prédios do CCS, da Reitoria e do CT, no campus do Fundão, abrigam, todas as quintas-feiras, a Feira Agroecológica da UFRJ. Uma das produtoras que exibem seus produtos é Vanessa Danciger. Entrevistá-la não foi uma tarefa fácil. Sua barraca era, de longe, a mais concorrida. Não se passavam mais que dois minutos sem que alunos, técnicos e professores do CCS se aglomerassem em frente ao “Quintal da Vanessa”. Ora para comprar produtos preparados artesanalmente com alimentos orgânicos colhidos de seu próprio quintal (e absolutamente livres de conservantes, açúcar, glúten e lactose), ora simplesmente para elogiá-la. “Comprei a sua cuca de banana aqui na semana passada e todo mundo lá em casa achou uma delícia. Você está de parabéns, viu?”, disse um senhor ao qual Vanessa retribuiu com a palavra que pontua quase todos os finais dos diálogos travados pela simpática agricultora: “Gratidão”.

Este “quase bordão” dá o tom da atitude de Vanessa. De sorriso espontâneo e inabalável, é realmente difícil não se contagiar com a paixão com a qual esta militante agroecológica conduz suas atividades. Invariavelmente o que poderia ser um mero procedimento de compra e venda acaba se transformando numa conversa entusiasmada sobre receitas orgânicas e alimentação saudável. E ela é enfática: “Eu não estou aqui apenas para vender os meus produtos, mas para disseminar uma ideia”. Na era da proliferação dos manuais de marketing empresarial, em que tudo soa tão artificial, dá gosto ver alguém sendo tão sincero e entusiasmado em relação ao seu negócio.

Ex-aluna de Agropecuária da UFRRJ, o interesse de Vanessa pela alimentação orgânica começou há cerca de três anos por conta dos problemas de saúde de um pai diabético que lhe demandavam uma dieta rigorosa. Mas não tardou até que ela própria revolucionasse também seu cardápio e começasse a usufruir dos resultados de uma alimentação mais saudável. “Eu sempre sofri de problemas alérgicos, tinha gastrite crônica. E assim que eu mudei minha alimentação esses problemas começaram a sumir. As pessoas banalizam as doenças como se fosse algo natural. Mas não é normal, por exemplo, ficar resfriado a todo instante. Através de uma dieta orgânica isso pode ser mudado”, comentou num dos poucos momentos em que não estava atendendo algum cliente.

Em parte, Vanessa atribui a boa receptividade aos seus produtos à localização da feira. “Por ser no CCS, muitos nutricionistas e pessoas que naturalmente dão mais importância à saúde acabam circulando por aqui”. Mas, conforme ela mesma explicou, isso é um sintoma de um cenário maior de mudança de mentalidade que vai se configurando à medida que as pessoas vencem a barreira do preconceito em relação a este tipo de alimentação. Segundo ela, muitas pessoas mais relutantes ainda se perguntam: “Será que é gostoso mesmo?”. Mas a questão é facilmente respondida assim que se prova alguma de suas receitas. Seus brigadeiros de castanha-do-pará e seu achocolatado de leite de inhame com cacau não deixam dúvidas. Não é à toa que esta é hoje a principal fonte de renda desta simpática agricultora.

A Feira Agroecológica da UFRJ ocorre semanalmente na Cidade Universitária e é apoiada pela Agência UFRJ de Inovação. Esta parceria com o Restaurante Universitário e o Instituto de Nutrição Josué de Castro reúne agricultores e cooperativas do estado do Rio de Janeiro que comercializam produtos agroecológicos cultivados pelo sistema de agricultura familiar. Conheça aqui outros projetos de inovação social apoiados pela Agência.

 

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