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Mostrar, na prática, que é possível criar novas formas de produção e consumo mais solidárias. Este é o objetivo principal do Mercado VIVO, uma ação que busca alimentar uma microeconomia de trocas onde os bens e serviços circulam em prol do bem comum e não tão somente da mera acumulação de capital.

A iniciativa consiste em um mercado popular e itinerante que disponibiliza saberes, serviços, objetos, afeto, experiências e arte de forma cooperativa e sem o uso do dinheiro, contribuindo com a construção de uma cultura de trocas como forma efetiva de consumo. No Mercado VIVO cada um participa como quiser, disponibilizando o recurso que tiver, mas sem uso de dinheiro. As trocas de bens e serviços são mediadas pelo “irreal”, moeda social do Banco dos Irreais.

Idealizado pelo artista plástico José Miguel Casanova, o Banco dos Irreais consiste em um banco de tempo, prática intimamente relacionada com a economia solidária. A moeda utilizada nesse banco, o “irreal”, equivale a uma hora na qual se realiza uma atividade qualquer. Assim, os investidores do banco se comprometem a dar momentos significativos de seu tempo e recebem em troca o número equivalente de irreais, que podem ser trocados pelo que é oferecido pelos demais investidores. Mas como essa economia se baseia mais na qualidade do que na quantidade, no Mercado VIVO, as partes podem negociar diretamente caso a caso.

Para entender melhor esta iniciativa, a Agência UFRJ de Inovação realizou uma entrevista com Valeska Xavier, coordenadora do Mercado VIVO que acaba de retornar da Espanha, onde apresentou o projeto em um encontro da rede LASIN (Latin American Social Innovation Network) na Universidade de Alicante.

Confira a seguir:

 

1) Poderia explicar melhor como funciona o Mercado VIVO?

O Mercado VIVO é mercado popular e itinerante que disponibiliza saberes, serviços, afeto,objetos e arte de forma colaborativa e sem o uso do dinheiro, contribuindo com a construção de uma cultura de trocas como forma efetiva de consumo e com a segurança alimentar dos envolvidos.

Nesse Mercado VIVO cada um participa como quiser, disponibilizando seu tempo, habilidade, serviço, objetos, etc. Esses recursos são trocados pela moeda social Irreal, que, por sua vez, é usada para adquirir bens e serviços no Mercado. Para facilitar a interação e as trocas, foram criadas cinco instalações.

A Ecoloja de Trocas Solidárias disponibiliza para a troca produtos usados em bom estado como roupas, livros, artesanatos, CDs, obras de arte, produtos artesanais. Na Troca de Saberes, acontecem oficinas, rodas de conversa, serviços e apresentações artísticas. Aqui cada participante, ao oferecer sua atividade, recebe o equivalente em irreais. O Ateliê Livre disponibiliza materiais para fazer artesanatos, artigos de cama e mesa, obras de arte, etc. Os produtos finais vão para a Ecoloja de Trocas e os participantes recebem o pagamento em irreais. O Mutirão de Produção e Consumo reúne um grupo de mulheres em vulnerabilidade social, pequenos produtores, educadores e universitários para produzir coletiva e solidariamente produtos artesanais de primeira necessidade (higiene, limpeza e preparações alimentícias) que serão compartilhados entre os participantes. E na Agência dos Irreais são emitidas as notas de irreais e compartilhados tempo em serviço.

O lastro do Irreal é o tempo compartilhado, e o tempo de todos têm igual valor. Ou seja, no Mercado VIVO todos têm igual poder aquisitivo, pois todos têm o potencial de compartilhar seu tempo e habilidades produzindo bens materiais e culturais úteis à vida em sociedade.

O Mercado VIVO afirma os valores da solidariedade e da cooperação como forma de organização social, alimentando uma microeconomia colaborativa baseada em trocas, onde os bens e serviços circulam em prol do bem comum e não da acumulação de capital.

 

mercadovivo2) Quem são os responsáveis por esta iniciativa?

A iniciativa do projeto é do Instituto Unitas, ONG que atua no Rio de Janeiro criando espaços populares de discussão, construção de conhecimento e convivência cooperativa.

 

3) Como surgiu este projeto?

Surgiu da crescente necessidade de se criar novos arranjos de convívio, produção e consumo baseados na colaboração e não na competição, como alternativa para a resolução de problemáticas socioambientais.

Se pensarmos no cerne das mazelas sociais que nos atingem (desigualdade, desemprego, educação de má qualidade, desequilíbrio ambiental, insegurança alimentar), vamos encontrar uma causa original: uma sociedade construída em cima de uma economia baseada na acumulação de capital e no consumo. Nesta economia de mercado, a riqueza é produzida por muitos e concentrada nas mãos de muito poucos, e os recursos são colocados como escassos, pois impera a lógica da competição e da acumulação. É considerada riqueza o que gera capital, incluindo as epidemias e as guerras, e o dinheiro e o mercado são os intermediários entre a produção e o consumo, distanciando o produtor do consumidor e determinando o poder aquisitivo das pessoas.

Percebendo a importância e potência de contribuir com a construção de novos arranjos produtivos, o Instituto Unitas cria, em 2014, a Feira de Trocas Solidárias, que foi se expandindo como espaço democrático de trocas até se consolidar como Mercado VIVO.

Nessa empreitada muitos foram os parceiros que compartilharam recursos conosco fortalecendo este microssistema colaborativo, como o Banco dos Irreais, trazendo a plataforma online de troca de tempo; a Universidade das Quebradas, acolhendo as instalações do Mercado e configurando arranjos de trocas de bens culturais; a Agência de Inovação da UFRJ, colaborando com métodos e estimulando o empreendedorismo social; o CIEP João Mangabeira e a E.M. Bahia, onde exercitamos o consumo colaborativo com os alunos; o MUDA, com a expertise na produção de hortas caseiras e o Ecentex da COPPE/UFRJ, com consultoria na área da gestão de redes.

Ao final de 2017, o projeto foi selecionado para a mentoria da Unidade de Suporte à Inovação Social - USIS/ UFRJ.  A USIS é parte do projeto de pesquisa LASIN, cofinanciado pela Comissão Europeia, com o propósito de implementar um modelo de envolvimento Universidade/comunidade. Com metodologia própria, desenvolvida previamente no projeto de pesquisa, a comunidade interna à UFRJ (professores, técnicos administrativos e estudantes) trabalha com a comunidade externa (grupos comunitários, ONGs e/ou OSCIPS, organizações governamentais e empresas), apoiando o desenvolvimento de inovações sociais. Esta mentoria forneceu importantes instrumentos de aprimoramento da gestão e comunicação do Mercado VIVO, bem como estimulou conexões e parcerias dentro da UFRJ.

Outra vitória foi a parceria com o Instituto de Nutrição da UFRJ que contribui na construção de conhecimento científico, formação de alunos e avaliação do projeto. Esta ação conjunta fortalece a proposta de promoção da Segurança Alimentar, que é definida como o direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem  a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis.

O principal fator de risco da insegurança alimentar é a falta de acesso aos alimentos devido ao baixo poder aquisitivo. Outro fator importante é o modelo agrícola brasileiro, que favorece o agronegócio em detrimento da agroecologia, o que faz com que os brasileiros sejam o povo que mais consome agrotóxicos no mundo.

A contribuição do Mercado VIVO se dá na medida em que disponibiliza democraticamente aos participantes preparações alimentícias e produtos de higiene e limpeza feitos artesanalmente, com matéria prima natural e livre de  toxinas  e agrotóxicos, bem como serviços e oficinas, sem o uso do dinheiro. Este acesso se dá não como uma doação, mas como resultado de um novo arranjo de produção e consumo, onde os participantes passam para o patamar de pequenos produtores, experimentando formas de produção e consumo alternativas ao grande mercado que os excluiu. 

 

4) Por que o Mercado VIVO optou por fazer uso da moeda “irreal”?

Porque a proposta do Banco dos Irreais é fundamentada na economia solidária e busca contribuir com um sistema econômico mais justo e que beneficie a todos. O lastro da moeda é o tempo e, portanto, promove inclusão democrática. A plataforma online dos irreais facilita trocas de tempo sem o uso do dinheiro e promove conexão entre instituições e pessoas que vem exercendo o consumo colaborativo e ajudando a construir uma nova economia.

 

5) O Banco dos Irreais é um banco de tempo em que cada irreal equivale a uma hora de determinada atividade. É fácil entender a troca de serviços mediada por esta moeda. Mas como funciona a troca de produtos por irreais?

Cada recurso que circula no Mercado VIVO é valorado de forma igualitária, um saber, uma experiência, uma intervenção artística, valem um irreal. Da mesma forma, nos espaços produtivos do Mercado VIVO, o tempo de trabalho, somado a recursos materiais doados ou reutilizados, se transformam em um produto (uma peça de arte, um produto natural de higiene, uma roupa customizada etc) que também vale um irreal.  

O Mercado VIVO produz seus produtos a partir do tempo em serviço dos participantes. Sendo assim, o lastro da moeda continua sendo o tempo, que é usado na produção e também na articulação e promoção de campanhas de arrecadação de objetos usados, sólidos reutilizáveis, material orgânico, sobras de alimentos e insumos que serão transformados nos bens e serviços que estarão disponíveis nas instalações do Mercado VIVO, bem como na captação de recursos públicos para o custeio das despesas em dinheiro.

 

6) O Mercado VIVO hoje é um projeto de extensão universitária da UFRJ em parceria com o Instituto de Nutrição e Mutirão de Agroecologia. Existe alguma diferença entre o Mercado VIVO e o “Mercado Vivo na promoção de Segurança Alimentar e Nutricional”? Qual a importância da obtenção deste reconhecimento institucional?

Existe diferença enquanto local e metas de atuação. O Mercado VIVO atua em 3 espaços: Escola Municipal Bahia no complexo da Maré, CMS Madre Tereza de Calcutá, na favela do Bancários e Faculdade de Letras, na Cidade Unversitária. No âmbito do “Mercado Vivo na promoção de Segurança Alimentar e Nutricional”, a atuação se dá no CMS Madre Tereza.

Há que se ressaltar que o objetivo do projeto é o mesmo em todos os locais de atuação: contribuir com a construção de uma cultura de trocas como forma efetiva de consumo e com a segurança alimentar dos envolvidos.

 

7) Como têm sido as reações da comunidade acadêmica e externa?

O Mercado VIVO atua em espaços e com públicos dos mais diversificados, como o Museu de Arte do Rio (MAR), a Colônia de Pescadores Z10, escolas e creches públicas e postos de saúde de comunidades em vulnerabilidade e em vários espaços da UFRJ. Estivemos também, na última quinzena de maio, na Universidade de Alicante na Espanha a convite da LASIN e da USIS (Unidade de Suporte em Inovação Social da UFRJ). Em todos os lugares que estivemos a proposta do Mercado VIVO é muito bem acolhida pela imensa maioria dos participantes. As pessoas se mostram muito curiosas e receptivas às atividades propostas.

Nos locais onde o Mercado VIVO fica por um tempo maior, como no CMS Madre Tereza e na Faculdade de Letras da UFRJ, já podem ser percebidos resultados positivos no orçamento familiar dos participantes mais assíduos.

Com o Mercado VIVO cria-se oportunidades de vivências colaborativas de produção e consumo. Ao produzirem o que vão consumir e ao adquirirem produtos e serviços sem usar dinheiro, os participantes criam conexões  entre si e alcançam autonomia de produção e acesso a produtos de primeira necessidade, arte e conhecimento.

Este exercício colaborativo é muito importante para mostrar outras possibilidade de convívio e consumo, ampliando as estratégias de sobrevivência e bem-viver.

 

8) Onde os interessados podem conhecer o Mercado VIVO?

O Mercado VIVO funciona todas as terças, das 8h às 12h, no CMS Madre Tereza de Calcutá, no Bancários (Av. Ilha das Enxadas, 100). As atividades do Mutirão de Produção e Consumo voltadas a alunos, comunidade acadêmica e inovadores sociais acontecem quinzenalmente no bandejão da Faculdade de Letras da UFRJ (datas na fanpage do MercadoVIVO).

 

 

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